Loucura, poesia e poder- Parte I
Gustavo Querodia Talerow já dispensa apresentações neste blog. Historiador, professor e mestrando deixa seu olhar e marca presença em seus textos. Gustavo tem se mostrado apaixonado também neste novo caminho que percorre: ao longo das pesquisas para o mestrado, deparou-se com cartas dos internos de instituições de “saúde mental” e deliciou-se com o conteúdo delas.
Generoso, compartilha conosco suas primeiras reflexões sobre o material.
Tem razão! O oceano entre os continentes da loucura: A arte de pensar (n) o Hospital do Juquery.
Simão Bacamarte, protagonista da clássica obra de Machado de Assis, “O Alienista”, ao buscar as causas, as manifestações e as formas de lidar com a loucura, já apontava a dimensão da tarefa a que se havia proposto ele e os “alienistas” de seu tempo:
“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”
Esta tarefa se torna ainda maior quando consideramos os portadores de transtornos mentais pessoas capazes de pensar, criar e refletir, independentemente da sua doença, uma vez que, nesta abordagem, o limite entre a razão e a “loucura” se torna tênue, muitas vezes quase imperceptível. A discussão sobre a possibilidade de haver ou não uma “razão” por trás das doenças mentais permeou toda a história da Psiquiatria e provocou em determinados momentos o seu afastamento da Psicologia, por exemplo, em suas diversas vertentes. Entretanto, com o movimento de Reforma Psiquiátrica [1], que propõe uma análise multidisciplinar sobre os doentes mentais, as produções artísticas, culturais e políticas destas pessoas passaram a receber uma atenção mais efetiva e pormenorizada.
Fato é que já nas décadas de 1930 e 1940, alguns médicos brasileiros buscavam nas artes a solução para os transtornos mentais de seus pacientes, como é o caso da Dra. Nise da Silveira no Rio de Janeiro e de Osório Cesar no Juquery, São Paulo. Todavia, tanto os psiquiatras quanto a sociedade em geral construíram ao longo do tempo uma imagem de incapacidade destes doentes, de modo que as suas palavras, opiniões, escritos e manifestações artísticas eram consideradas somente a comprovações da presença de delírios.
Como parte das pesquisas para a composição da minha futura dissertação de Mestrado, analiso os prontuários médicos produzidos no Hospital do Juquery entre 1923 e 1945, compondo um perfil dos pacientes ali internados e transcrevendo alguns trechos que julgo elucidativos. Esta verdadeira incursão na realidade que os pacientes ali internados viviam e nas histórias de vida ali apresentadas, foi possível verificar o conflito entre a “razão” e a “loucura”, em tentativas de imposição de suas concepções de normalidade por parte dos médicos e na luta por ter voz por parte dos pacientes. Sem a pretensão de fazer maiores discussões sobre as formas de atuação dos médicos ou sobre o próprio histórico do Juquery, pretendo compartilhar aqui algumas etapas destes conflitos, mais que de “dominação” ou de “controle” em termos foucaltianos [2], mas de mostrar a razão que há por trás da loucura diagnosticada.
Uma prática comum naquele hospital era a de interceptar as cartas redigidas pelos pacientes para comprovar os delírios apresentados a partir da análise de seus conteúdos e da própria grafia dos doentes (“estudo grafopatológico”). Este acervo se constitui importante fonte documental para compreendermos a visão que os pacientes tinham sobre a sua doença, sua condição de reclusão e sobre o atendimento que recebiam no hospital e a avaliação que os médicos faziam sobre esta produção.
Um exemplo interessante é o do paciente Benedicto R. P, 30 anos, internado em 21/07/1923, negro, sargento da “Força Pública”. No relato de sua doença, o psiquiatra afirma que não encontrou nele a “presença de delírios”, mas que ele é “tolo, ambicioso e tem mania de perseguição”. O paciente redigiu uma carta, que foi interceptada pelos médicos, ao seu superior da Força Pública e ela acabou por constituir a base para o seu diagnóstico de “Parafrenia”. As observações em destaque são a reprodução exata das realizadas pelos médicos na carta em questão:
“[...] estando em bom estado, tomo a liberdade de pedir a V.S., por especial fineza a dispensa do meu irmão cabo-tambor deste mesmo batalhão, afim de que ele possa vir ao hospício entender-se comigo a respeito de minha saída.
Meu mano virá com a minha senhora e as crianças. Provavelmente ele lembrará de trazer as roupas, cigarro, fumo e dinheiro para as despesas que forem necessárias
Falta de lógica
Sem mais, queria aceitar a recomendação afetiva do meu fiel camarada e amigo B.R.P, do regimento de cavalaria”
Egocentrismo e falta de respeito
Aqui é possível perceber que o fato de o paciente tratar com certa intimidade o seu superior, faz com que se legitime o seu diagnóstico, uma vez que ele estaria violando as normas e hierarquias estabelecidas. A clareza da escrita e a coerência nela expressa em nenhum momento são analisadas. Este paciente faleceu em março de 1925, sem que a causa fosse relatada.
Com esta mesma conotação, um rapaz de 28 anos, branco, internado em 29/04/1928 teve as suas cartas endereçadas para sua família interceptadas para comprovar seu diagnóstico de “Melancolia ansiosa”, que fazia com que suas lamentações “entrassem pelo crepúsculo e o encontravam ainda no raiar do dia”:
“Querida família:
Não sei qual o motivo que deixou de vir me visitar. Sinto saudades de todos daí e ninguém vem me visitar. Será possível que vossos corações transformaram em pedra, ou morreram todos? Eu faço questão que minha família venha me visitar.
Estou cansado de escrever a vocês e não obtenha resposta. Esta será a última carta que escrevo antes de ir para o suplício eterno. Quero que ninguém senão chamarei todos vocês de traidores”.
Neste caso, a súplica do rapaz para que a sua família o fosse visitar serviu somente para que se comprovasse a “melancolia” que provocou sua internação. Vale dizer que em seu prontuário consta que ele tinha “inteligência lúcida, caráter reto. Era estudante de Medicina”. Todavia, a lucidez de seus escritos não foi capaz de fazer sucumbir o estigma de loucura que foi colocado sobre ele.
[1] Movimento presente em vários países que propõe a extinção dos Hospitais Psiquiátricos e a implantação de uma rede de atendimento alternativo, sem que haja a exclusão social e a manutenção de doentes em regime asilar de longa duração. Para maiores informações, ler: AMARANTE, P. D. de C. (coord.). Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica na Brasil. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1995
[2] Michel Foucault, filósofo francês (1926 – 1984). Autor de obras consagradas como “História da loucura”, “Vigiar e punir” e “Microfísica do poder”.



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Escrito por hoeffler às 10h38