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discussão
Movimentos sociais e educação
Ah, é muito bom compartilhar o mundo com seres pensantes e reflexivos. Na semana passada, "cutuquei" uma destas pessoas maravilhosas que me permitem estar em sala de aula e pedi-lhe mais textos para o blog. Eis o que Rutimiriam Porto enviou. Texto polêmico. Vale ler e debater. O blog é pra isso. A caça às escolas itinerantes “Segunda-feira, dia 02 de março, notícia inicial do Jornal da Globo: Ministério Público do RS fecha escola itinerante do MST. Em poucos minutos, a notícia: Presidente Lula crítica assassinato do fulano por parte de integrantes do Movimento dos Sem-terra. Overdose ideológica na veia. Sem anestésico”. (1) Não é novidade que as principais fontes de informação populares, como jornal da Globo e a revista Veja, com frequência articulam notícias de interesse público de forma distorcida, ou seja, deixando lacunas como diz Marilena Chauí, dessa forma tem formado opiniões de acordo com os interesses políticos desse ou daquele partido. Mostrar o fechamento de escolas do MST e mostrar o presidente Lula contrário ao assassinato supostamente cometido por um integrante do movimento deixa transparecer que essa já não é mais uma causa apoiada pelo mesmo. É claro que o MST conta com o apoio do atual governo brasileiro. E não deveria ser diferente, já que na essência o PT é ou pelo menos dizia ser um partido de trabalhadores, sendo assim, é coerente que movimentos de reivindicação de trabalhadores rurais por reforma agrária tenham simpatia petista. Por outro lado, contar com esse apoio não justificaria – caso seja constatado pela CPI que foi aprovada hoje quinta-feira 22 de outubro – que verbas públicas sejam utilizadas por esse movimento. Ao contrário, existem discussões sobre a legitimidade desse movimento como movimento social. O promotor de justiça do Rio Grande do Sul, Gilberto Thums, defende que o MST transformou-se em movimento político ideológico, financiado por ONGs que recebem verbas públicas e são repassadas ao movimento, com base nessas afirmações algumas medidas foram tomadas como bloqueio às contas bancárias e fechamento das escolas itinerantes. O caso das escolas é curioso, o promotor afirma que nas escolas desses acampamentos são ensinadas táticas de guerrilha armada. Já o Ministério Público alega que seu fechamento deve-se ao fato de que “elas não seguem as diretrizes pedagógicas oficiais e implantam a ideologia socialista nos alunos.” (segundo o Jornal O Globo de 19/02). Por estes motivos foram fechadas no início desse ano. O intuito do promotor é defender sua opinião pessoal (segundo o mesmo) de que o movimento deve ser extinto e jogado na ilegalidade por incitar o vandalismo, a violência e a invasão ao patrimônio privado produtivo e que seus membros deveriam ser tratados como criminosos. Utilizar-se desse discurso pejorativo a respeito da educação nos acampamentos é tão polêmica quanto o próprio movimento, que é amado por muitos e odiado por tantos outros. Se de um lado encontramos entre seus defensores ícones nacionais da educação como Paulo Freire e Florestan Fernandes que defendiam de forma bastante contundente que nosso país é carente de movimentos sociais e que o MST é um símbolo de tal resistência contra o latifúndio e defensor da consciência de classe, por outro somos bombardeados por manifestações da mídia contrárias a ele como é o caso da publicação na revista Veja em setembro de 2004. A jornalista protesta contra o fato dos estudantes terem um calendário alternativo que difere da cartilha do Ministério da Educação, ela afirma que em visita a acampamentos no RS notou que “os professores utilizam, uma espécie de calendário alternativo que inclui a celebração da revolução chinesa, a morte de Che Guevara e o nascimento de Karl Marx. O Sete de Setembro virou o "Dia dos Excluídos", e a Independência do Brasil é grafada entre aspas. "Continuamos dependentes dos países ricos”. (3) Que a intolerância sempre existiu porque o ser humano não sabe viver com os desiguais, ou não quer saber por medo de perder o poder, não é novidade. Que nosso país se recusa a admitir as discriminações contra mulheres, negros, pobres e aí por diante continuam fazendo parte do nosso cotidiano, também não se discute aqui. Fico com a definição de Maria Eleusa Mota Santana, representante dos movimentos sociais em Uberlândia, “o MST não foi invenção de alguns (as) trabalhadores (as) brasileiros (as). Trata-se de um movimento social de extrema importância, uma vez que tem uma especificidade classista, uma dimensão contestatória radical. São camponeses e camponesas que se organizaram na luta pela terra e passaram a ser reconhecidos mundialmente como Sem-Terras do MST, numa denominação que a imprensa adota e divulga como sendo a saga do povo camponês ao buscar o fio da meada que havia ficado solto desde o desmoronamento das Ligas Camponesas pelos militares na Ditadura.” (2). A preocupação real e que não podemos deixar de refletir, é que deixando o maniqueísmo de lado acerca desse assunto, os engajados nesse movimento poderiam ou deveriam pensar até que ponto os protestos do promotor Gilberto Thums são infundados, será que o MST e sua causa nobre não está sendo usado como massa de manobra? De fato sua base é formada por pessoas com extremas dificuldades em vários âmbitos, mas o que há por trás disso tudo, que por que depois de tanto tempo de existência, ultimamente esses pobres famintos vêm incomodando tanto as autoridades? Não nos esqueçamos que por trás do lema “brioche para todos” gritado pelo povo faminto na Revolução Francesa, estava um forte interesse político burguês que em nenhum momento depois de sua vitória possibilitou o brioche para todos, ao contrário, a fome continuou, a exploração aumentou e deu asas ao vôo do capitalismo. De qualquer forma, podemos dar asas também ao “terrível” pensamento feminista do poeta Zé Pinto que tanto me encantou: Não nos faça essa maldade Se queres lavar meu prato Só porque tu és mulher, Imploro-te de joelhos Não nos faça essa maldade. Reforçar este machismo Nunca trará recompensa. Se a consciência tem flores Mas também dita a sentença Nem deveria viver Quem te faz reconhecer, Que teu caminho é apenas Entre o fogão e a despensa. (Zé Pinto é cantador, poeta e compositor do MST) Rutimiriam Fontes (1)http://livresassociacoesdafifi.blogspot.com/2009/03/escolas-itinerantes-fechadas.html(aceso em 22-out-2009) (2)www.revistadeeducacaopopular.proex.ufu.br/.../getdoc.php?id...(acesso em 22 out-2009 (3)http://veja.abril.com.br/080904/p_046.html(acesso em 22-out-2009)
Escrito por hoeffler às 15h03
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Filosofia da educação
Neste semestre fui brindada com a disciplina Filosofia da Educação no sexto semestre do curso de Letras. turma vibrante, ,madura, de olhos atentos e mente fervilhante. Uma das reflexões pedidas e feita por dois alunos, Laura e Rodrigo, segue logo abaixo.
Protágoras e Sócrates - Relacionando as filosofias
Laura Lucy Dias,
Ricardo Lima
Alunos concluintes do curso de Licenciatura em Letras
em 2008.
Em nossos dias vemos na prática de ensino muito do que a filosofia já apontou, em relação ao sofista Protágoras e ao Sócrates temos muito que observar e aprender.
Realmente a mistura das duas filosofias ocorre, porém não podemos dizer que de forma harmônica. A questão do sofismo que se relaciona com a aquisição de poder ocorre na educação contemporânea, mas não é em relação a quem adquire o conhecimento e sim em relação a quem o oferece e para quê. Hoje a visão da necessidade de ter um povo alfabetizado está voltada para o mercado de trabalho, o que contraria a Sócrates, que acredita que a educação não deve ser útil, o indivíduo deve aprender para depois entrar no mercado de trabalho com um conhecimento prévio sobre si mesmo e necessário para exercer a sua função.
É complicado falar que todo o método utilizado hoje seja tradicionalista, e que este remonta totalmente ao padrão Sofista, mas não podemos deixar de notar que simplesmente sua base é acompanhada de pitadas desta filosofia. Como? Os currículos definem o que será aprendido pelo aluno, um conhecimento pré-estabelecido é entregue e deve ser aplicado diretamente na mente do indivíduo pelo professor, que por sua vez não exercita a prática de ensino além da exposição de conhecimentos que foram gerados por outros, sem o mérito de discutir e gerar outros conhecimentos que não estes.
Já com Sócrates vemos que a necessidade do conhecimento da sua própria ignorância leva o indivíduo a gerar idéias e isso é uma forma diferente de se ensinar. A possibilidade de ver o ser através de sua individualidade e depois universalizá-lo é algo até romântico, mas na prática deve ser pensado, sua correção deve partir da formação de nossa sociedade e seus pensamentos, e por isso talvez devêssemos olhar mais para a virtude, como Sócrates, para assim entendermos a sua proposta de ensino e sua filosofia em geral.
O capital vem antes de tudo para a sociedade na qual vivemos, e sua virtude é o poder que pode causar, então como podemos em um mundo capitalista vislumbrar a virtude antes do capital? Talvez esta seja a pergunta eminente para alterar a base de nossa sociedade, entretanto a discussão aqui cabe a métodos de ensino, e em relação a isto talvez pudéssemos trazer pequenas alterações, mas estas propostas seriam barradas na impossibilidade da falta de capital destinado à educação.
Para a possibilidade da maiêutica, como método de pesquisa, talvez seja a disponibilidade de material, e principalmente a alteração na consciência social na valorização do aprendizado desde a infância, o que retornaria ao cunho político. A questão da retirada do Currículo seria algo que derrubaria a estrutura do ensino nacional, como ensinar um aluno de acordo com a filosofia de Sócrates (que leva o aluno a gerar uma idéia)?
Sabemos que a necessidade de levar ao aluno o conhecimento de coisas pré-estabelecidas é necessária devido a sua inserção na sociedade, porém poderíamos fazer com que ele as pensasse, mediando como tantas propostas nos trazem, para isso precisamos de alunos mais motivados e isso leva à necessidade de ensinar o que eles querem aprender. Então o que faremos? Ele não quereria aprender nada, o professor pode se esforçar e, partamos do pressuposto que ele tenha conseguido que o aluno se motivasse, mesmo que através de estímulos ou de alguma outra forma, então o aluno seria levado à pesquisa, e passaria a formular as idéias pré-existentes, num processo de desenvolvimento e não de assimilação por mera exposição destas idéias, e isso levaria o aluno a uma autonomia que é tão prevista pelos PCN´s e introduzidas pelo neoliberalismo, porém tão pouco motivada e mesmo possibilitada.
O conhecimento para os sofistas era algo que deveria ser condicionado, isto significa que deveria ser assimilado e não gerado, ao contrário do que diz Sócrates. Está, também, nas mãos dos professores mudar o conceito do ensino de hoje, podemos pelo menos tentar fazer com que o indivíduo tenha sua autonomia, o que pode ser muito mais valoroso até do que lhe proporcionar a possibilidade de se condicionar a ser virtuoso, em vez de sê-lo pela essência dos valores adquiridos com a educação, como Sócrates queria.
Escrito por hoeffler às 17h15
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Olhar sobre o cotidiano
Cristiano Alexandria de Oliveira é nosso colaborador constante. Já demonstrou suas habilidades com a palavra ao escrever poesia e outros textos de caráter literário para o blog. Neste artigo, ele discretamente nos revela outras facetas: ele projeta seu olhar de artista plástico e pensador da contemporaneidade sobre a cidade. E naquilo que parece banal vê oportunidade de reflexão, de leitura. E nos ensina ...
Sobre as africanas de resina
(Ou:” existe arte popular demais”?)
Cristiano Alexandria de Oliveira
Nas prateleiras das lojas de resina, principalmente na Avenida 25 de março, no centro de São Paulo, é visível o aumento da quantidade daquelas estátuas que representam negras africanas. O brilho da cor da pele e as cores vivas dos ornamentos chamam a atenção dos consumidores, que estão trocando os velhos anjinhos anglo-saxônicos por esta nova e exótica opção.
Observando bem as estátuas, percebe-se que todas elas são baseadas numa etnia única: os sudaneses da África negra, que vivem nas savanas da zona boreal. Esta etnia é caracterizada por indivíduos altos e esbeltos. As roupas e utensílios também distinguem este grupo dos demais africanos. Uma sub-raça dos sudaneses, chamada de “nilóticos”, que habita as regiões às margens do rio Nilo, define melhor ainda o tipo representado. São pessoas altas, membros longos, cabeça pequena e lábios delgados.
Estas características são muito acentuadas nas estátuas. A figura, quando observada num primeiro momento, chama a atenção por parecer desproporcional. Mas basta um minuto a mais de atenção para percebermos a singeleza das formas, a suavidade das curvas, a doçura dos braços que parecem quebrar ao menor toque, segurando lanças de caça, baldes e crianças.
Há um sem número de opções e tamanhos para se escolher. Mas o que mais me chamou a atenção foram as estátuas sem rosto. Herdeiras de uma tendência modernista em escultura, a íntima relação entre o real e o abstrato e a harmonia presente mesmo nas formas exageradas dão à obra um valor notável, tanto que assume valor de mercado. Digo isto porque é mais fácil, hoje em dia, para uma obra de arte ter valor artístico do que econômico, como item de compra em potencial.
Quando eu as vi pela primeira vez, achei que estivesse ocorrendo uma heresia contra um Vítor Brecheret, um Henry Moore ou um Alfredo Ceschiatti. Afinal, a temática, as formas, as idéias, o imaginário moderno em escultura estava ali sendo vendido, em resina, ao lado de um pedaço de papel rasgado escrito em letras garrafais “quebrou, pagou”, misturado com dragões chineses raivosos, miniaturas de espadas, Budas e Shivas. Tudo muito “capitalizável”.
Mas não. Fui obrigado a reconhecer a beleza das africanas magrelas em seus afazeres domésticos. Os famigerados anjinhos anglo-saxônicos permaneciam lá, de forma cristã, os mesmos. E merecem ter a sua beleza barroca reconhecida. As pessoas em volta ora manifestam apoio às africanas, ora reprimem, alguns por puro preconceito. Não preconceito contra os negros. Mas contra a arte.
Eu apoiei. Demorei um pouco, mas compreendi. Compreendi não só o valor daquelas peças, baratas até pelo tanto de história que carregam. Mas compreendi o valor de Bernini, Míron, Antonio Canova e Michelangelo, escultores de base realista, clássica, que se (sub)desenvolveu nos amáveis anjinhos anglo-saxônicos; e o valor de Brecheret, Ceschiatti e Lehmbruck, escultores modernos, voltados para a harmonia das formas geométricas, que se (sub)desenvolveu nas amáveis africanas. Tudo em resina, arte pura, a preços bem mais em conta do que nos leilões.
Afinal, não era isso o que os modernos queriam? Enfim, a arte mais popular, a arte no centro das cidades, nas principais zonas de comércio, dentro de cestas como se fossem mantimentos, compradas por atacado, acessível às classes mais baixas, tão nossa quanto arroz e feijão, causando espanto, tirando as pessoas de seus estados catatônicos, incentivando o diálogo artístico e a crítica até dos que não são críticos.
Pois é. Passeando pelas ruas de uma São Paulo carente, encontro ao menos um sorriso dos heróis de 1922, escondidos atrás das frias prateleiras de uma loja de resinas.
Escrito por hoeffler às 12h30
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Hipocrisia
Há aproximadamente quatro semanas aconteceu uma grande tragédia. Uma inocente e doce criança de seis anos de idade, de nome Isabela, foi estrangulada e jogada de um prédio, muito provavelmente pelo pai e pela madrasta, fato este que tomou conta dos noticiários e mobilizou grande parte da sociedade. Após tantas investigações, depoimentos, provas, exames, resta-me um sentimento: cansaço! Cansado da hipocrisia com que esta atitude bárbara tomou conta de nossas vidas. Não há um lugar sequer que não comente e que não se clame por justiça... Hipocrisia!
Talvez você esteja achando que sou um desumano e sem coração, caro(a) amigo(a), ao dizer que estou cansado (talvez indignado seja o termo correto). Mas é verdade, não agüento mais ligar a TV ou abrir o jornal e a manchete “Isabela” tomar conta das atenções. Não que eu queira que os culpados saiam ilesos ou que seja a favor de tais atitudes; no entanto o que vejo é que esta JUSTIÇA que pedimos no caso desta doce criança não é para todos.
Vou contar-lhes uma história, mas é claro que já viu em alguma manchete de jornal: em dezembro de 2005, antevéspera de Natal, dois adolescentes Fernando e Fabiano, 17 e 14 anos de idade respectivamente, saíram para ir a uma festa (que não existiu). Com a autorização do pai, os dois irmãos saíram, com a promessa de voltarem cedo para inaugurarem, no dia seguinte, o quarto novo, recém construído e mobiliado (talvez como um “presente de Natal”). Nunca mais voltaram... a festa era uma cilada, a volta se deu um dia depois num caixão para a missa de corpo presente.
É possível que você diga: “dois nóias que roubavam ou deviam grana para os traficantes”. Eu e tantos outros dizemos o contrário, pois convivíamos com ambos e sabíamos todos que o perfil dos dois jovens não se enquadrava ao de “nóias”, nem roubavam, nem deviam. Mas é certo que você já ouviu falar deste caso nos jornais, né?! Não!! De fato, não apareceu nenhuma manchete alertando que dois jovens foram brutalmente assassinados com vários tiros. Talvez porque o pai deles fosse um simples auxiliar de limpeza do postinho de saúde do bairro, que trabalhava o dia inteiro e à noite ia para a escola, recuperar o tempo perdido nos estudos. Ou então porque eles morassem lá no “fundão” da cidade onde ninguém escutasse os tiros ou os gritos por justiça! Talvez porque o Aneildo e a Luciene, meus amigos, não sejam tão importantes para ganhar as manchetes dos jornais com a morte de seus dois filhos... afinal, quem é Aneildo? E os filhos dele?
É possível que você pergunte o que aconteceu. E eu te digo: não teve polícia civil, equipamentos ultra modernos, manifestação e mobilização de boa parte da sociedade, investigação, depoimentos... o que teve foram dois corpos e uma família destruída. Qual crime é pior, o de Isabela ou o de Fernando e Fabiano? Os dois são horríveis! Por que somente o dela teve repercussão na mídia nacional?! Eu não entendo, por isso acho isso uma hipocrisia! É provável que você também conheça um ou mais casos destes que, assim como do meu amigo Aneildo (que voltou para o seu Ceará, já que a vida aqui em São Paulo não mais existia sem a presença de seus filhos), são desconhecidos e até mesmo ignorados. Gritos como este que grita só, sem ser ouvido... grito que é vencido pelo cansaço. Cansaço de esperar por uma JUSTIÇA que para ele não virá.
Quantas “isabelas” nestas três semanas foram assassinadas, espancadas, vendidas como prostitutas, abusadas sexualmente? Quantas “isabelas” morreram de fome no Nordeste e em tantos outros lugares de nosso país? Qual o número de “isabelas” que morreram doentes, nas filas dos hospitais públicos, sem nenhum atendimento ou vitimas da violência? Agora, enquanto você lê estas linhas meu caro(a) amigo(a), quantas “isabelas” gritam, clamam, imploram por socorro... e não são ouvidas?!
Justiça ao caso Isabela! JUSTIÇA TAMBÉM aos casos “isabelas” que não chegam à mídia, que não movem a massa, que não dão ibope, mas que são, como o de Isabela, monstruosos, desumanos, e que também requerem justiça... mas eu, estou cansado desta hipocrisia! As histórias do Fernando e do Fabiano e das “isabelas” não vão estar na capa dos jornais amanhã cedo. Talvez porque o Aneildo e os “josés” e “marias”, pais deles, não sejam conhecidos, ou porque o escritor destas linhas não seja famoso. E é provável que a justiça não venha (como está o caso do assassinato dos meus dois amigos) porque eu, Aneildo, Fernando e Fabiano, “isabelas” e tantos outros passamos despercebidos diante de UM caso tão horrível como o de Isabela, que ocupou e ocupará por um bom tempo as manchetes de todos os jornais, até deixar de aumentar a audiência.
Hipocrisia... estou cansado!!!!
Marcel Alves Martins
Escrito por hoeffler às 11h50
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Silêncio
Quando as palavras não bastam...
Quando o sentimento não se cala...
"vamos ouvir esse silêncio meu amor amplificado no amplificador do estetoscópio do doutor no lado esquerdo do peito, esse tambor " (Arnaldo Antunes)

Crianças tibetanas

Monge em oração frente a templo


"Paz sem voz não é paz, é medo" (Marcelo Yuka)
Escrito por hoeffler às 10h19
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Tradição e modernidade
Ofícios, tradição e gambiarras
Gilmar de Carvalho
Como os ofícios tradicionais conseguem sobreviver na contemporaneidade, num contexto de predomínio das novas tecnologias?
Pode-se chamar de anacronismo a permanência de ourives, barbeiros, modistas, lambe-lambes numa Fortaleza que tem pretensões de ser metrópole?
A tradição é a fixação de práticas que se sedimentaram, ao longo do tempo, pelo fato de fazerem muito sentido para as comunidades.
Elas resultam de um processo lento de fixação, se baseiam numa transmissão que muitas vezes não é compreendida como tal, e passa pelo olhar atento, pela experimentação às escondidas e pela necessidade de fazer para sobreviver.
Essa aprendizagem escapa à objetividade das políticas culturais e se inscreve como um processo informal. Nem sempre se aprende porque se quer, mas porque é preciso.
São recorrentes os relatos de músicos que não tiveram professor e aprenderam vendo parentes e vizinhos tocarem. Na negação da iniciação sistematizada, entra em cena o conceito de Dom.
Atribui-se a Deus uma habilidade que é cultural. Mas essa atribuição também está prevista nos códigos da cultura.
Curioso como prevalece no Brasil a simultaneidade de tempos. Temos o arcaico convivendo com a tecnologia de ponta no mesmo espaço e ao mesmo tempo.
Essas assimetrias dão uma idéia da complexidade de uma discussão que deveria ser levantada mais vezes.
Raízes
Fortaleza é uma grande cidade sertaneja. E nisso não vai qualquer tentativa de depreciar a quarta maior (?) cidade brasileira.
Viemos do sertão. Essa negação problemática e responsável por muitos traumas.
Queremos deixar de ser caboclos e assumir novos códigos, na marra. Fomos ingleses no tempo da Casa Manchester. Passamos para a França com a bandeira tricolor dos paquetes da Boris Frères. Durante a Segunda Grande Guerra, fomos invadidos pelos norte-americanos que até hoje não saíram daqui e trouxeram uma bebida gasosa, cuja fórmula de fabricação é guardada a sete chaves. Pior: trouxeram um estilo de vida e uma visão de mundo. Muitos ainda se deslumbram com o império hegemônico que dá visíveis sinais de decadência.
O sertão se degrada na periferia da cidade. Esse desgaste se acentua com a pauperização das manifestações culturais vindas na bagagem dos migrantes.
Durante muito tempo tivemos pastoris. Os pandeiros eram feitos de latas de goiabada e a percussão obtida graças às tampas de garrafas de guaraná batidas que chacoalhavam nos buracos abertos com facas.
O partido azul e o encarnado faziam a festa das crianças de um tempo não muito distante. Borboletas pequeninas voejavam. Ciganas do Egito usavam colares, moedas nos turbantes e lenços. A Diana fazia a síntese entre as duas cores. O auto de natal de origem ibérica se perdeu nos escaninhos mais recônditos da memória.
Os bois de armação de madeira, cobertos de chitas, com aplicação de espelhos e miçangas, não saracoteiam pelas ruas. Hoje, são atrações para turistas e não a celebração dramática do ritual da morte da vaca preferida do fazendeiro pela mulher grávida do vaqueiro.
Os brincantes já não pintam bigodes com lápis de sobrancelha e não se vestem de chita. As quadrilhas juninas são micro-empresas. A adesão a elas se dá como às escolas de samba cariocas: o pagamento de uma prestação mensal garante a roupa de brocado, lanches e transporte. Os ensaios são feitos com “play-backs” e novas coreografias seguem a sintaxe do espetacular. Com paus e fitas, os brincantes batem palmas e fazem seu show. Dá para ser contra?
E assim, entre tensões e aplausos, recusas e adesões, esse embate vai se construindo no espaço da cidade, no tempo de agora e sempre.
Pregões
“Vassoura de espanar, vassourinha e espanador”, “Panelada e fígado gordo”. “Doce gelado, ô doce”. Os pregões do passado são permanentemente atualizados. Hoje, temos o pregão polifônico dos vendedores de água de coco, espécie de ladainha, poesia sonora, música urbana, entrecortada por sincopas, aliterações e repetições (oco, coco, co, ô, água), praticamente pendurados às janelas dos ônibus, num ritual de sobrevivência que comove e incomoda.
Ainda persiste, em menor escala, o grito de “borracha pra panela de pressão” e “desentupidor de fogão a gás”.
Mas os pregões amplificaram seu alcance. O carro do sorvete oferece, por meio do sistema de som: “quatro bolas por apenas um cinqüenta centavos”. E conclui, agregando praticidade ao produto: “ já temos a vasilha”.
O carro do bolo oferece uma diversidade de sabores e cobra apenas dois reais por unidade. Se levarmos em conta que esse dinheiro não paga uma fatia nas doceiras sofisticadas da cidade, dá para se ter uma idéia do que se está a consumir.
A tapioca é vendida nas bicicletas, com direito a amplificador acoplado ao guidom e é oferecida na hora do café da manhã, com o pregão tendo como trilha uma das canções religiosas de Roberto Carlos.
As frutas vêm da Ceasa e chegam as nossas portas, facilitando nossas vidas.
O menino de recados foi substituído pelo serviço de entrega, o “delivery” que deixaria irritado o defensor da exclusão de língua estrangeiras em nosso léxico.
Como colocar barreiras na língua? Voltaríamos ao tupi, aliás, idéia que vale ser cogitada. E para que mais pregão que o grito do varejo? Se Deus não é surdo, o consumidor tampouco. O insuportável 30/ 60/ 90/ 120/ 180 de boa parte dos comerciais recorre a uma estratégia do rádio que, por sua vez, busca nas feiras seu ponto de partida. A mídia se sofistica, mas o apelo continua o mesmo.
Espelho
Qual é nosso sonho de cidade? E nosso ideal de consumo?
O inchaço da cidade não significa crescimento. A proliferação de “shoppings”, “flats”, franquias e bandeiras de cadeias de hotéis acentua o “apartheid” social.
Vivemos uma cidade sitiada. Os ricos se sentem ameaçados e elevam os muros de suas casas. Os condomínios estabelecem uma vigilância panóptica, onde o “grande irmão” do show televisivo atua de verdade.
Os arrastões não poupam ninguém e os carros blindados não previnem de todas as pedradas.
Construímos uma cidade a partir de normas de etiquetas, do que importamos dos grandes centros e esquecemos que o “lixo” nem sempre se comporta debaixo do tapete.
A economia informal irrompe, agressiva e se alastra pelo entorno da Catedral. O Beco da Poeira é um dos lugares mais movimentados de Fortaleza, apesar das ruas estreitas, das proteções de plásticos e dos fios descascados que transformam aquilo tudo numa bomba relógio que, graças a Deus, não foi nem será detonada.
Arcos inúteis, enfeites que arquitetos e urbanistas implantam nas praças e espaços públicos se tornam estruturas para vendas, moradia e lazer. Tudo é ressignificado pelo povo.
A propaganda governamental (em todos os níveis) trabalha com o estereótipo. Quem vê a propaganda do banco regional pensa que está no campo da ficção, tão pasteurizadas e limpas são as imagens do comercial.
Temos dificuldades em conviver com nossa realidade de desdentados, gente feia, mas cheia de garra, com determinação e espírito empreendedor.
Seremos melhores quando adequarmos nossos sonhos ao nosso cotidiano, ao que somos de verdade.
É justamente nessa esquina entre o real e o idealizado que vicejam as paredes de papelão e latas, que se misturam os códigos da norma culta e da fala do povo, que se entrelaçam o “ê má”, o “tu é doido”, com a leitura acadêmica que fazemos dessa babel, um enigma que não conseguimos decifrar.
As “lan-houses” pontificam incluindo, digitalmente, os que compram mp-3 e os carregam com o forró que nos poupam de ouvir, o que não acontece com o “som de carro”, proibido em alguns bares.
A pirataria desconcerta as investidas policiais feitas à Feira dos Pássaros, às calçadas do centro e onde quer que esteja um vendedor que inclusive faz um “gato” da rede de distribuição pública de energia para melhor vender seu produto.
O que é mais pirata: a duplicação indevida (?) dos cds e dvds (assim se fez o sucesso de “Tropa de Elite”) ou o preço extorsivo do que é vendido legalmente?
E o que acontece quando nos recusamos a ver o que o espelho, impertinente, nos mostra? Fortaleza...
Centro/Periferia
A periferia pode estar no centro do centro. Para que algo mais periférico do que o chamado colunismo social?
Para que maior caricatura que mulheres enchapeladas, crianças fantasiadas de personagens da mitologia nos “buffets” infantis, casamentos temáticos (Romeu e Julieta), jovens garanhões (mas não tanto), recepções com um quê de Versailles?
A indigência de nossos novos-ricos joga para a periferia o que parece ser centro.
Por outro lado, a dignidade e a coerência dos movimentos sociais (bairros e favelas, jovens, sindicatos, sem-teto) levam para o meio da cena questões que não nos interessa enfocar.
Essa tensão é importante para uma compreensão mais fina de nossa complexidade social.
A cidade inchou. As relações sociais se tornaram mais complexas. A violência não é causa, nem efeito: é uma forma extrema do processamento dos paradoxos impostos pelas elites. O mercado se diversificou e se sofisticou. Tenta-se subverter a segmentação.
E onde ficam barbeiros, ourives, alfaiates, fotógrafos ambulantes nesse contexto?
Não se surpreendam se, em breve, os barbeiros de navalha estiverem fazendo performances nos salões de “haute-coiffure”. Os ourives podem ser chamados para armarem suas tendinhas nas joalherias de grifes dos hotéis de luxo, na linha do típico, da mesma forma com que bandas cabaçais tocam nos teatros com orquestras sinfônicas, fazendo a festa de políticas culturais assimétricas e elitistas, traçadas ao capricho dos gestores de plantão.
Da mesma forma que o “fast-food” pode incorporar o “cai-duro”, o forró dialoga com o axé, a tapioca ganha recheio de catupiry ou cobertura de chocolate “fondant”, a paçoca é feita no liquidificador e o centro da cidade continua no mesmo local.
Nossa relação com a memória é tensa. Negamos a tradição, mas não adianta negar ou rejeitar as práticas culturais mais ancestrais, o que faz sentido (ainda) para a comunidade: tudo volta, como as ondas do mar em seu eterno refluxo.
E assim caminha a Humanidade. E assim vamos levando tudo isso, rindo da própria desgraça, legitimando o que não merece e levando a sério o que deveria ser objeto de escárnio.
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=518530. Acesso 09 mar. 2008
Escrito por hoeffler às 06h57
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Este é um país que vai pra frente
Rafael Freitas apresenta-se como “Especialista em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), formado em Letras pela Universidade do Grande ABC (Uniabc), professor de Língua Portuguesa da rede estadual e, claro, apaixonado por futebol.” Mas quem conhece o Rafinha sabe que ele é muito mais do que isso. Tive o privilégio de conhecê-lo quando ingressou no curso de Letras. Menino cheio de sonhos, e cheio de medos também. Rafael amadureceu, formou-se com louros apresentando um TCC maravilhoso e ganhou o mundo. Talvez o Rafa não saiba que quem mais ganha, na verdade, é o mundo, por tê-lo por aqui. Rafinha deixou marcas profundas de garra e alegria em todos os que o conheceram. E hoje, apresenta seu texto neste blog. O assunto é polêmico.
De Copas e Paus
Rafael Freitas
Todos nós sabemos, pois foi amplamente divulgado pela mídia, que o Brasil irá sediar pela segunda vez o campeonato mundial de futebol. Candidato Único, foi simples e fácil: bastou apresentar um caderno de encargos, prometerem mundos e fundos,apresentar vídeos onde os estrangeiros assistem que o Rio de Janeiro continua lindo, que o país tem uma infra-estrutura de primeiro mundo, e que é capaz de sediar eventos de porte internacional com sucesso, como os Jogos Panamericanos e o Mundial de Fórmula 1 para que tudo se encaixasse na mais perfeita ordem; afinal de contas, a copa do mundo é nossa...
O que mais me intriga é algumas situações que me levam a pensar o quanto o mundial de 2014 será um sucesso: é claro que o presidente do país teria de estar presente, mas e todos os outros políticos também? Estariam buscando mostrar as maravilhas de seus estados, com o intuito de sediar um grupo, apenas para constar na história de que foi palco de um (eu disse um!!!) jogo na copa? Estádios? Ah, temos vários, todos em perfeitas condições: Fonte Nova, Pacaembú, Mineirão, Morumbi... (só quem já freqüentou um estádio sabe do amplo estacionamento, banheiros limpos, lanchonetes adequadas, fácil acesso para portadores de necessidades especiais, etc, etc...)Se fosse apenas isto, vá lá, mas tenho minhas desconfianças...
E o mais curioso foi a presença do escritor Paulo Coelho na cerimônia de diplomação do Brasil para a Copa: até onde minha memória permite me relembrar, nunca vi Paulo Coelho escrever um livro sobre futebol, mas... comparar futebol ao sexo, para discutir o que é melhor ou pior é algo, com o perdão da palavra, broxante. Nélson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade e Luis Fernando Veríssimo, só para citar alguns, em termos futebolísticos, teriam mais direito de serem homenageados, por sua obra visando o bem da bola.
Todos nós somos apaixonados por futebol, e por isso devemos ter as coisas feitas às claras, bonitas, como um drible ou uma grande defesa. Bonito é ver cidadãos educados, formados e unidos, cientes e conscientes de que a Copa é feita para que um país progrida e cresça, assim deve ser o objetivo de um país que sedia uma copa. Bonito é ver o que os alemães fizeram ao perder a semifinal para a Itália, em 2006. Junto ao portão de Brandemburgo, gritavam: “perdemos uma copa, ganhamos uma história”. É natural, vindo de um povo que tem educação.
Educação? Sim, futebol e educação estão lado a lado. Como professor, penso que, ao educarmos nossas crianças, adolescentes e adultos, estamos não só ensinando matérias, mas procurando formar cidadãos críticos e conscientes, que possam fiscalizar e observar de que forma esta copa estará sendo organizada, cobrar que tudo corra na mais perfeita ordem. E não só a copa, mas quaisquer outras coisas que venham a influenciar, nossa casa, nosso bairro, a sociedade, o mundo. Mas penso que infelizmente, no patamar em que estamos, a copa não passará de um circo, armado para distrair e alegrar a sociedade, enquanto o governo entrará com o pão para quem tem fome e durante a festa, eles farão a festa em cofres públicos, superfaturamento, lobistas, de forma que, se não estivermos de olhos bem abertos, ficaremos com o pão e eles, com o banquete. Não se deve brincar com o futebol, não se deve brincar com o povo. Estamos de olho!
PS: Já que não homenagearam ninguém de fato e direito, lembrei de você, Drummond.
No estádio, na praia, na rua Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma. A bola é a mesma, forma sacra para craques e pernas-de-pau. Mesma a volúpia de chutar Na delirante copa-mundo ou no árido espaço do morro. São vôos de estátuas súbitas desenhos feéricos, bailados de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua o jogador, gravado no ar – afinal, o corpo triunfante da triste lei da gravidade.
Escrito por hoeffler às 10h12
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Masculino e feminino
Cristiano Alexandria Oliveira, mais do que somente um dos brilhantes participantes deste blog, é assíduo colaborador nos bastidores. Foi ele o primeiro a sugerir a criação de categorias para classificar e organizar os textos. Foi o primeiro também a pensar em "botar fogo" nas discussões, quando me forneceu, no final de 2007, o texto abaixo. A idéia que ele teve foi o de inquietar os leitores, fazê-los se posicionar frente ao conteúdo lido. E que assim seja!
Mais uma vez, Cris, agradecemos.
Este pequeno texto é parte de um pequeno projeto que venho montando para analisar uma grande coisa: a Gramática. Mais uma vez a Gramática, esta virgem maiúscula e severa, tão devassa quanto intocada, mas sedutora aos que se deixam levar pelos seus mais rubros encantos.
A idéia de tratá-la tão poeticamente como uma musa vem bem a calhar ao tema da análise: a questão do gênero nos livros de escolares de Gramática, particularmente quanto ao caso do gênero feminino, sua participação, influência e importância.
Antes, é bom que eu deixe bem claro que Gramática não tem opinião própria, não tem preconceitos, não se dirige (pelo menos não por conta própria) a esta ou aquela classe social. A Gramática, como coisa da mente, fruto da linguagem, é pura, deusa elevada. Quem opina, preconceitua e dirige são os gramáticos. Oráculos, talvez, de posturas políticas, são eles que delineiam o corpo da Gramática que vai para os livros, mas a alma dela existe bem fixada em nossas mentes.
Como o texto serve de introdução – porque há muito mais por vir, analiso aqui apenas um livro: Novo Português Básico, para a sétima série, de Maria da Conceição Castro, publicado em 1990. Antes, um porquinho mais de porquês.
Este texto é assim porque a pesquisa está em processo embrionário e o objetivo dele não é ser frio nem aporrinhar o leitor. Deixemos as citações um pouco, filosofemos sem culpas e bibliografias. E o livro escolhido a ser analisado foi este porque o usuário dele deve estar agora com seus 30 ou 31 anos, se não houvesse bombado em nenhuma matéria anterior. É o adulto de agora, o usuário “competente” da língua.
Enfim, vamos. Para focar ainda mais a análise, analiso aqui somente os exemplos das explicações de conteúdo. O exemplo é muito importante na formação do conhecimento. É o que faz digerível a parte teórica, organiza o pensamento, dá forma prática e usual à matéria.
Em “Conhecendo melhor a nossa língua”, página 13, vemos uma pequena revisão de classes de palavras. Substantivos: sino, coelho, amor. Adjetivos: bonito, feliz, pequeno. Pronomes: ele, nosso, este. E por aí vão todas as classes de palavras. Perceba que, nos exemplos, não há nenhuma presença do gênero feminino. Nenhuma ocorrência sequer. Seria descuido de quem escreveu? Preconceito não poderia ser, pois quem a escreveu foi uma mulher. O que acontece?
Prossigamos. Na página 16, uma breve explicação sobre Frase, oração e período. Estas frases introduzem o assunto: “Fiquei um pouco admirado”; “Não saia!”; “Que calor!”; “Nas paredes, nenhum quadro”. Quatro frases. A primeira se refere, como vemos pelo adjetivo, ao gênero masculino. Pelas outras três, impossível definir. Logo abaixo, vem escrito: “A frase que contém um verbo é chamada de ORAÇÃO”. E seguem os exemplos: “a classe está irrequieta”; “Os alunos brincam no pátio”. O primeiro exemplo está no feminino coletivo. E, no segundo, o plural “alunos”, no masculino, dá a idéia de ser somente meninos ou de ser meninos e meninas que brincam.
Por que, nestes exemplos, dá-se tamanha preferência para o gênero masculino? Em exemplos que muito bem poderiam se referir ao gênero feminino, a autora preferiu frases cujo gênero é totalizante ou indefinido.
A página 17 segue com o assunto e consta com os seguintes exemplos: “cheguei atrasado”; “o dia está chuvoso, mas assim mesmo sairemos”; “ele se enganou”; “eles chegaram e saíram logo”.
A princípio, o papel do gênero feminino vem de forma muito específica, como na explicação dos pronomes retos e oblíquos ou em concordâncias nominais (que é regra, dá preferência ao masculino). Quando o assunto a ser tratado possui uma idéia mais generalizada, os primeiros exemplos vêm sempre com idéias de gênero masculino, seja no adjetivo ou no pronome. O gênero feminino é mais usado com coisas inanimadas, como classe, cadeira, noite e substantivos abstratos, como tristeza, alegria e fome. O masculino recebe a maioria dos pronomes (principalmente no plural, por dar a dupla noção de totalidade masculina, ou parte masculina, parte feminina), os substantivos animados, como nomes de pessoas (Pedro, João etc.) e animais (leão, pássaro etc.).
Há, por trás destas escolhas (porque são escolhas, à medida que há uma gama quase infinita de formação de diferentes exemplos para um mesmo tópico), uma forma inconsciente de ideologia? Se os exemplos fossem outros e houvesse um balanceamento no uso dos gêneros, haveria mudança de aproveitamento do aluno? E o professor, como se coloca (ou deve se colocar) diante do que tem em mãos?
Certamente há uma enorme conjuntura histórica por trás de tudo isto e não será possível fugir de averiguar a história da educação, desde os primórdios. Afinal, educação para mulheres é algo recente se considerarmos a educação desde Aristóteles até os nossos dias. Pode haver, nos livros de Gramática, um elo perdido, uma herança do que foram os estudos antigos, infinitamente mais masculinos do que são hoje?
Pode haver..? Quantos textos, caro leitor, terminam por aí com uma dúvida? Poucos. Mas não é mais do que posso deixar de lição. Nada encerra totalmente a verdade e, se a dúvida não for dada pelo próprio texto, busque você, leitor, a sua.
Escrito por hoeffler às 10h27
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Participação
Hoje inauguramos uma nova categoria no blog. Trata-se de textos para promover “discussão” entre os leitores. Para tanto, é necessário esclarecer que os textos postados nesta categoria são de inteira responsabilidade e opinião de seus autores. No momento de discuti-los, e espero que os leitores não sejam tímidos e o façam, é fundamental que se mantenha o respeito característico daqueles que preservam a liberdade de opinião. Palavras ofensivas de modo geral, ofensas pessoais, ou qualquer outra forma de agressão não serão admitidas. Aqui não se pretende confrontar pessoas, mas sim idéias. Quem inaugura esta nova categoria é Ana Paula Enes Costa com o desabafo escrito na sexta-feira passada. A imagem que ilustra o texto também foi sugestão dela. O que vocês pensam sobre o que ela escreve? Posicionem-se! 
ESTOU FURIOSA! ABSURDAMENTE POSSESSA!!! E, como não posso sair pela Paulista empunhando uma faixa de protesto sozinha porque os que deveriam me ajudar vão rir de mim e achar que faço parte do Casseta & Planeta, resolvi escrever, berrar minha indignação por meio de palavras esdrúxulas. Gritar contando com a solidariedade de cidadãos que devem sentir algo parecido com o que sinto. SERÁ QUE EU TENHO CARA DE PALHAÇA?!!! Eu pagava CPMF desde que comecei a trabalhar com carteira assinada e ter dinheiro no banco. A cada ano me perguntava alienada/afundada na “inocência” típica de brasileiro: “CPMF não significa Contribuição PROVISÓRIA sobre a Movimentação Financeira? Se é PROVISÓRIA por que pago isso há tanto tempo?” Mas esquecia assim que saia da frente do caixa eletrônico com dinheiro na mão... Até que eu voltava ao banco e constatava, aborrecida e impotente, que a cada movimentação do dinheiro que EU ganho por meio do MEU trabalho honesto eu enchia o bolso de algum político corrupto. De centavos e poucos reais o porco enche o rabo. Será que não basta eu pagar INSS, IR, não sei mais quantos impostos inclusos em cada chiclete que eu masco ou em cada mercadoria que eu consumo? Não, sua idiota, não basta, você ainda tinha que contribuir com uma taxa que ficticiamente era destinada à saúde... Eu nunca reclamei. Por um milagre divino disfarçado de interesses políticos, a oposição do governo de um Lula-fantoche resolveu encrencar com a CPMF e finalmente bani-la. Achei bonito, juro! tive um fio de esperança (a última que morre), talvez estivesse surgindo uma oposição de verdade (inocência?), uma capaz de mudar algo em benefício da população, ou seja, eu meu, em seu favor. A votação foi emocionante, quase como uma partida de futebol (uma das poucas e verdadeiras paixões nacionais depois da cerveja e do pagode), lances emocionantes de discursos inflamados e... GOL!!! da oposição: extinguiu-se a CPMF e senti a sensação de que nem tudo é como o poder quer... Então veio o governo lulista e disse: “Ah é?!! Tá bom, nós tiramos a CPMF sim, mas aumentaremos a IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de tal maneira que vocês prefeririam ficam com a CPMF...” COLOQUEI MEU NARIZ DE BOZO e assisto a isso neste momento. Não, sério mesmo... Eles realmente zoam com a nossa cara!! E o pior de tudo: EU NÃO VOU FAZER NADA!!! Eu queria, de verdade, saber o que acontece comigo e com as pessoas que aceitam esse tipo de imposição sem mover uma palha, sem protestar, sem dar um mísero pio. Fico achando que EU não entendo mais nada. O governo me rouba o tempo todo e o máximo que consigo fazer é escrever umas linhas porcas pra descrever o mínimo da minha pobre e insignificante indignação. Será que só eu, na minha alienação-pseudo-burguesa, enxergo que esse país NÃO É UMA DEMOCRACIA, que tudo isso é imposição de poder, que isso é uma manipulação descarada porque está embaixo de nosso nariz de palhaço e não nos manifestamos de nenhuma forma contra? MINHA GENTE... o que está acontecendo??? Este é só um ponto de uma lista de absurdos. Não conseguiria enumerar todos os problemas que me vêm à cabeça... Este desabafo se transformaria num muro imenso de lamentações. Mas, será que só sabemos nos lamuriar? Será que nunca seremos capazes de iniciar uma mudança maior do que o espaço que está ao alcance de nossas mãos??? Acho que por enquanto é isso. Estou cansada, vou dormir... amanhã é sábado e preciso estar bem pra tomar minha cervejinha (paixão nacional). Abraços. Ana Paula Enes.
Escrito por hoeffler às 09h04
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