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Blog de hoeffler

textos literários



Noturno

Cristiano Alexandria de Oliveira é inteligente, criativo e versátil. Publica hoje uma poesia bastante diferente da anterior. Permita-se, caro leitor, perde-se em seus versos para senti-los.

 

Inconsciente

 

Meia-noite

Triste meia-noite

que se aproxima,

inquieta,

selvagem,

sorrateira.

A nuvem negra cobre a lua.

os coros dos desabrigados

gemendo no frio

invadem as janelas.

os homens loucos

emitem seu brado

de angústia.

planejam suicídios,

arquitetam crimes,

destroem vidas,

estrupam mulheres,

 

oh meia-noite,

doença fatídica,

porque me corrompes...

deixai-me viver...

 

a lua já é alta,

dominante...

quem somos nós

nesta terra infante.

escorre sangue

dos meus poros.

sinto cheiro de carne queimada.

tenebrosa meia-noite,

desesperada,

pútrida,

rainha,

soberana...

 

deixai-me viver.

 

a noite mágica,

a meia-noite cruel.

ladram os cães,

gritam as aves,

cai o frio,

cai a neblina,

desfalece a alma humana

no sono e na doença,

os suspiros rareiam,

os olhos cegam,

as árvores mortas

dão sombras à dor

 

oh noite bela

meia-noite sublime e eterna

deixai-me viver

 

cobiça,

inveja,

luxúria, doçura

morrem os amores

na confiança perdida

o abismo é mais próximo

a dor mais aguda

o vento mais forte

tem asas cortantes

vulcões tremendos

lavas que descem

pesadelos horríveis

pânico

e é tudo verdade

 

oh, noite que pune

puna meus erros

mas peço

por tudo

deixai-me viver

 



Escrito por hoeffler às 10h44
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Festa do Momo

Em tempos de carnaval, vale relembrar o texto de Gil Vicente, Todo o Mundo e Ninguém, extraído do auto da Lusitânia, representado pela primeira vez em 1532.  Quase cinco séculos depois, ainda é atual.

 

Ninguém: Que andas tu ai buscando?
Todo o  Mundo: Mil cousas ando a buscar, delas não posso achar, porém ando perfiando por quão bom é perfiar.
Ninguém: Como é seu, nome, cavaleiro?
Todo o  Mundo: Eu me chamo Todo o Mundo, e meu tempo todo inteiro sempre é buscar dinheiro, e sempre nisso me fundo.
Ninguém: E eu me chamo Ninguém, e busco a consciência.

Berzebu para Dinato: Esta é boa experiência! Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Berzebu: Que Ninguém busca consciência, e Todo o Mundo dinheiro.

Ninguém:  para Todo o  Mundo: E agora que buscas lá?
Todo o  Mundo Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deos mande que tope co' ela já.

Berzebu para Dinato: Outra adição nos acude, escreve logo e a fundo, que busca honra Todo o Mundo e Ninguém busca virtude.

Ninguém:  Buscas outro mor bem qu' esse?
Todo o  Mundo: Busco mais quem me louvas se tudo quanto eu fezesse.
Ninguém:  E eu quem me reprendes se em cada coisa que errasse.

Berzebu para Dinato: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Berzebu :Que quer em extremo gradoTodo o Mundo ser louvado, e Ninguém ser repreendido.

Ninguém   para Todo o  Mundo: Buscas mais, amigo meu?
Todo o  Mundo: Busco a vida e quem ma dê.
Ninguém:  A vida não sei que é, a morte conheço eu.

Berzebu para Dinato: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Berzebu: Muito garrida.Todo o Mundo busca a vida, e Ninguém conhece a morte.

Todo o  Mundo para Ninguém:  E mais queria o paraíso, sem mo ninguém estorvar.
Ninguém:  E eu ponho-me a pagar quando devo pera isso.

Berzebu para Dinato: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Berzebu: Escreve que Todo o Mundo quer paraíso, e Ninguém paga o que deve.

Todo o  Mundo para Ninguém:  Folgo muito d' enganar, e mentir naceo comigo.
Ninguém:  Eu sempre verdade digo, sem nunca me desviar.

Berzebu para Dinato: Ora escreve lá, compadre, não sejas tu preguiçoso!
Dinato: Quê?
Berzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso, e Ninguém diz a verdade.

Ninguém para Todo o  Mundo: Que mais buscas?
Todo o  Mundo: Lisonjar.
Ninguém:  Eu sou todo desengano.

Berzebu para Dinato: Escreve, ande la mano!
Dinato: Que me mandas assentar?
Berzebu: Põe aí mui declarado, não te fique no tinteiro, Todo o Mundo é lisonjeiro, e Ninguém desenganado.



Escrito por hoeffler às 10h07
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Palavra

Mama Palavra

Ana Carolina

Composição: (João Bosco - Francisco Bosco)

Se disparada pelo amor
Palavra-bala
Na boca do ditador
Toda palavra cala
Ô, mama
Cala palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra

Quando não se quer ouvir
Palavra-mala
Quando não se faz sentir
Pobre palavra rala
Ô, mama
Rala palavra
Ô, mama, ô, mama


Mama palavra
Em volta da mesa do bar
Palavra-porre
Se o tédio me assaltar
Palavra me socorre
Ô, mama
Cada palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra

Se gritar pega ladrão
Palavra corre
Quando não se tem tesão
Toda palavra morre
Ô, mama
Morre a palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra

Mãe de todos nós
Dos sem mãe
Dos sem voz

Na fala do policial
Palavra-malha
No Distrito Federal
Toda palavra encalha
Toda palavra encalha

Aquela que não funcionar
Palavra-falha
Aquela que não se juntar
Vira palavra-tralha
Tralha

Quando tudo fala igual
Palavra-palha
Pra tudo que é marginal
Palavra que batalha
Palavra que batalha

Aquela que não funcionar
Palavra-falha
Aquela que não se juntar
Vira palavra-tralha
Tralha


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Escrito por hoeffler às 09h43
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Vênus e Medusa

Márcia Serafim é nossa estrela de hoje. Estrela de brilho próprio, nascida dos olhos de Vênus, capaz de seduzir como Medusa. Márcia é musa. Mas também é poetisa, escritora de inteligência voraz, criatividade lascinante. O tema de sua monografia em Letras já nos dá pistas de quem é esta mulher que não teme ousar se intitular "maravilhosa": A moral e a religiosidade nas obras do escritor francês Marquês de Sade. Márcia empresta um pouco do brilho deste olhar, fatal e vital, para nós. Segue texto escrito e prontamente ofertado quando descobriu o blog. A imagem que o ilustra foi cedida por ela.

“A vida é uma peça de teatro, que não permite ensaios. Por isso, cante, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."(Desconheço o autor)
 
Cenas da vida - 1º Ato

Luzes apagadas, cortinas serradas. O palco que antes parecia tão grande jaz solitário... É a vida que passa ligeira.
E ela ali, olhando as cadeiras vazias. Cadê os aplausos que antes a incomodavam? Hoje só pranto se ouve... É o barulho da vida que segue.
Vida de poucas saídas, vida de pouco brilho. Vida sentida em poucos sorrisos, sem viço, vida sem juízo.
E ela sentada à beira do tablado, vê a existência acabando, já não é a mesma mulher, dela restou somente parcelas de uma atriz decadente. Dela restou apenas parcelas do que se foi, do que já não é.
E ninguém mais a aplaude de pé, pois a mulher se perdeu pelos palcos da vida. Fez arte, fez peças... A aprendiz de raposa, foi presa fácil, se perdeu...Decaiu, endureceu...A luz apagou,
O palco esvaziou
E sua vida descontrolada, totalmente enviesada em dores de amor, se vai...
E a dignidade que ainda lhe resta, permite que levante a cabeça e olhe em direção ao palco...E lá está ela refletida num espelho opaco...
Cena de horror, semi-sorriso de dor...Eis o que faz um grande amor.
 
Cenas da vida – 2 º Ato
 
E ela levanta lentamente, ergue suas ancas cansadas e segue em direção ao nada. Tão vazia de sentimentos, tão cheia de tudo.
Olha-se naquele mesmo espelho opaco e contempla a ação do tempo...Sem expressão, sem começo, sem fim, apenas um imenso nada, um estúpido nada.
Abre a bolsinha de camurça vermelha e pega um batom carmim...E fingindo formosura, tenta, desesperadamente, (RE) começar...(RE) abrir as cortinas de sua própria vida...
O show tem que continuar.



Escrito por hoeffler às 13h11
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Coração afro-brasileiro

Apresentar Maiaty Saraiva Ferraz como professora de Literatura Inglesa seria demasiado simplista para uma alma tão rica. Maiaty, de nome indígena, leciona língua e literatura inglesa e é apaixonada pela cultura afro-brasileira. De sensibilidade ímpar, é professora, tradutora, poetisa.

Emocionada com os eventos comemorativos da Semana da Consciência Negra, organizada pelos alunos, Maia, como carinhosamente a chamo, revelou-me que escrevera um conto....e que poderia publicá-lo no blog.

Meus queridos, apreciem cada palavra da escritora Maiaty. Mas não com a razão, com o coração. Permitam-se viajar nas palavras com as quais ela tece a teia que nos envolve e nos encaminha ao mundo de nossos ancestrais, tão distante, tão presente...

 

Fortuna

Maiaty Saraiva Ferraz

Os navios chegaram ao nascer do dia. Quase silêncio... Canto dos pássaros. Um canto quieto, contido, quase triste. Tão furtivamente quanto aporta o navio, descarregam-se os mercenários. As armas vão à frente de suas cabeças, quebrando folhas e galhos. Caminham sem parada, como quem sabe exatamente aonde vai. Mata adentro. Mata adentro.

(...)

Dentro da mata. Um homem negro, alto, forte, ajoelha-se sobre uma pele de leão. Segura nas mãos um punhado de búzios. Sacode-os, deixa-os cair sobre a pele. Olha atentamente para a pele. Recolhe os búzios. Deixa-os cair de novo. Repete o ritual várias vezes, até que, cansado, resolve descansar um pouco. Envolve os búzios em um pedaço pequeno de pele e os coloca ao lado da pele de leão. Está sentado ao pé de uma árvore, é noite, e uma fogueira acesa bem próxima evita que animais cheguem perto. Uma mulher sai de uma cabana bem próxima e vem até ele. Ele está sentado no chão, os braços apoiados nos joelhos, olhando para o nada. Ela se ajoelha a seu lado. Tem o olhar apreensivo e preocupado que têm todas as mulheres de guerreiros. Ele balança a cabeça negativamente. Nada... nenhuma visão... nenhum sinal... nada... nenhuma pista sobre o futuro da tribo... nenhuma...

A mulher do guerreiro volta para a cabana. Não dormiu, não dormirá. Aguardará que ele venha com algum resultado. Sabe que eles têm todos sob sua guarda espiritual, que todos querem saber se a caça será boa na próxima estação, se as águas e as frutas serão abundantes. Devem saber o que esperar, a quem pedir, a quem agradecer... E para saber isso vão esperar a noite toda se for preciso.

(...)

Os mercenários já estão mais perto de seu destino. Já avistam as aldeias, mas não se aproximam. Vão se esconder feito bichos, para atacar como bichos, dando bote...

(...)

O guerreiro volta aos búzios. Volta e pergunta. Volta e pergunta. Insistentemente pergunta... Sua aflição vai aumentando e as forças de seu coração parecem se exaurir. A dor toma conta de seu peito, uma dor tão lancinante, como se uma fera estivesse mordendo seu corpo. Uma dor que parece que nunca mais vai abandoná-lo...

O dia nasce. Os raios do sol nunca lhe causaram tristeza, mas agora causam. Sua companheira vem ao pé da árvore. Ele sente vontade de chorar, mas se controla. Logo todos vão chegar e ele não tem resposta nenhuma, nenhuma... E isso nunca acontecera antes.  O guerreiro leva as mãos ao rosto, mas quando as tira o que vê é exatamente o que mais teme. Não está num sonho. Não está num pesadelo. È tudo verdade. Será que os Deuses os abandonaram???????

O guerreiro não sabe o que fazer. Os outros chegam e querem saber o que viu. Ele diz que tentou a noite toda e ainda não viu nada. Pede que esperem mais. Vai tomar um banho de  cachoeira antes de recomeçar. Atordoado, recolhe suas coisas e sai apressado.

Os homens e mulheres mais maduros ficam assustados. Correm uns até a cabana dos outros. As notícias não soam boas. Sabem o que significa não ter uma só palavra dos céus. Algumas mulheres choram, outras se recolhem para rezar. Alguns homens pegam as armas. Outros vão se juntar ao grande guerreiro na cachoeira.

(...)

Os mercenários levantam ancora. Já fizeram a primeira parte de seu serviço odioso. A tribo acorrentada nos porões do navio, junto com outra tribo próxima. Muitos foram mortos. Não terão funeral digno de heróis. O grande guerreiro queria ter morrido com eles. Pergunta-se por que os Deuses o pouparam. Pergunta-se por que os outros não se revoltam e o matam ali mesmo, por que não o enforcam com as correntes... Tudo o que sente dentro de si é que não conseguiu salvar seu povo, não conseguiu salvar seu povo... esse pensamento perduraria em sua cabeça até o fim de seus dias.

A companheira do grande guerreiro diz a ele que todos precisam dele, que ele sempre será o chefe deles, não importa onde estejam. E assim será.

(...)

A tribo se reúne à noite, em volta da fogueira. Não possuem mais lanças, nem escudos, nem peles de animais. Vestem-se com roupas de pano, que lhes cobrem as pernas, o dorso, às vezes também os braços. Agora os brancos estão dormindo e eles podem se reunir, como faziam em sua terra. O chão forrado com folhas, sentam em tocos, fumam cachimbos de madeira, não tão bonitos nem enfeitados com penas, como os que costumavam fazer, mas de formato semelhante. Durante o dia têm de falar a língua dos brancos, mas à noite conversam em volta da fogueira, falando na sua língua. Chamam-se pelos seus nomes, sorriem e cantam as canções que a pouca alegria permite. Sentam-se em tocos de madeira, como faziam na floresta. Os brancos não lhes deixam ter tambores para tocar, mas não podem impedi-los de se reunir e conversar. Os pequenos escutam o linguajar dos mais velhos, aprendem com eles. Amanhã terão de falar a língua dos brancos.

Tocar a terra e senti-la com as mãos faz com que se lembrem de sua aldeia. O cheiro desta terra que habitam agora não é o mesmo, nem o calor, nem a espessura. Os brancos não são livres. Vivem trancados em casas, em terras com cercas, e suas armas são frias e pesadas. Os brancos não sabem o que é liberdade, por isso escravizam os negros. Rezam juntos, mas não são uma tribo, moram distantes uns dos outros, muito distantes. Não sabem dançar nem sentir alegria, como o povo da floresta sentia. Suas danças e suas músicas não são alegres como as do povo da floresta. Por isso, hoje, o povo da floresta canta mais triste também. Porque vive numa terra triste. Mas ainda é um povo. E sempre será.

(...)

A companheira do grande guerreiro já não pode mais andar. Os anos de trabalho roubaram-lhe as forças, e ela passa os dias e noites na cama. Trabalha ainda com as mãos, não quer ficar parada, diz que o dia não passa se ficar só olhando pela janela. As mulheres mais novas vêm conversar com ela, vem ajudá-la a se cuidar e se alimentar, vem pedir conselhos e ensinamentos. O dia passa logo assim. Seu guerreiro também a ajuda. Apesar da idade avançada, ele a carrega no colo. As forças não o abandonaram, deve ser uma compensação dos Deuses. Ela não pode se unir aos outros todas as noites porque as dores nem sempre deixam, mas quando o faz, vai nos braços de seu guerreiro. Quando ele chega com ela nos braços, todos ficam em silêncio, abrem caminho, e preparam um assento para ela. Vêm pedir a benção dos dois. Ela nem acredita que tanto tempo passou, que não é mais jovem, que estão lhe pedindo a benção, que ela agora é senhora. Para ela, será sempre como aqueles dias da floresta, em que os homens matavam as feras com suas lanças e seus escudos. Para ela, seu guerreiro será sempre Rei. O sol vai brilhar acima da copa alta das árvores. Ela sabe que um dia vai partir, e então poderá voltar à sua terra e nadar em sua cachoeira, junto a seus Deuses amados.

(...)

O grande guerreiro coloca uma flor na terra. Veio visitar sua amada companheira. Fala com ela, conta-lhe tudo o que está acontecendo com os filhos da tribo. Pede a ela que volte. Agradece a ela por todos os dias junto dele. Todos os dias.

(...)

Muito anos se passam antes que o grande guerreiro parta. Ele parte sentindo-se ainda culpado por sua tribo ter sido rendida. Parte sem compreender porquê os Deuses assim quiseram. Parte sem saber a importância que tinha para os filhos da tribo. Parte sem saber que eles não seriam mais um povo se não tivessem seu Rei para reverenciar. E isso, os brancos não lhes tiraram.

 



Escrito por hoeffler às 10h34
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Caminho da prosa poética

Pesquisa não é só fruto de trabalho intelectual e muita disciplina, também é o resultado de sensibilidade e criatividade. E a literatura também.

Um dos mais belos exemplos destas qualidades é Ana Paula Enes Costa. Revisora de textos, graduada em Letras e finalizando sua pós-graduação em Língua Portuguesa, Ana Paula é uma pessoa apaixonada por aquilo que faz. E devota um amor fiel à Ligia Fagundes Telles. Sua monografia foi dedicada `As meninas, tanto na graduação quanto na pós. E seu rigor na pesquisa desenvolvida valeu-lhe um convite para o mestrado.

Mas teria este convite resultado tão somente da belíssima pesquisa empreendida por Ana e às leituras que fez unidas à sua arguta inteligência. Não creio....Ana também é poeta, cronista, escritora. Costura suas idéias com fios das Musas.

E generosamente, oferece o texto a seguir para nosso deleite.

Pedras

Ana Paula Enes Costa

 

Todo mundo carrega pedras nessa vida.

Uns talvez carreguem mais, talvez mais pesadas.

Outros talvez carreguem menos, mais leves... talvez.

Mas não se pode julgar o peso das pedras de ninguém.

 

As pedras são individuais e intransferíveis.

Cada um é responsável por livrar-se delas pelo caminho que percorre...

Ou...

Fazê-las multiplicar no colo enquanto dorme.

 

Pedras podem transformar-se em plumas

quando há disposição em carregá-las com coragem e honestidade.

As oportunidades – com suas mãos generosas – tiram pedras do colo, tornando o fardo mais leve e os passos mais rápidos.

 

Pedras podem transformar-se em chumbo

quando há preguiça em carregá-las.

As oportunidades se afastam, as pedras se acomodam no colo paralisando os movimentos.

 

Porém, as pedras não são apenas peso de ânimo,

Não são só pedras do caminho,

São inerentes à vida,

São peças que compõem esse imenso rodamoinho.

 



Escrito por hoeffler às 10h15
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